Reflexões sobre o luto

O que ardeu quando Portugal ardeu?

No dia 17 de Junho de 2017 Portugal viu o inferno perto. Chegou pertinho ou entrou-nos em casa pela televisão.

Percebemos que não acontece só lá longe, nem acontece só a quem não se conhece. Acontece. E é real. Quando visitamos aqueles concelhos, o caminho na estrada pode tornar-se mais lento, os mortos que ali ficaram podem pesar nos vivos que continuam a estrada entre a culpa e o medo. Os olhares pousam nas árvores queimadas e procuram os restos do que pode ser verde. Ali, o verde pode significar vida. Guarda a pergunta “como sobreviveste?”.

Esta é uma realidade cheia de imagens, de cheiros que se conseguem quase imaginar nas repetidas reportagens televisas, de rostos desolados, de perdas imensas.

Aproxima-se um novo 17 de Junho e pensamos “o que será que ardeu além do que vimos arder?”

As pessoas precisam de se recuperar além das casas, além das árvores, além das estradas e dos sinais queimados e escondidos pelo fumo. E é muito mais difícil recuperar pessoas do que casas, mesmo que essas também demorem muito.

Com aqueles incêndios, Portugal percebeu que a palavra catástrofe não é só “do estrangeiro”, que o medo e a desorganização também matam, que as pessoas se ajudam e protegem como podem. Que somos, afinal, todos muito pequeninos e insignificantes.

O tempo não cura e é preciso mais que tempo: é preciso uma casa segura, que volte a contar a história de uma família, a guardar as fotografias de quem ali vive e espaços simbólicos para quem já não entra lá; é preciso uma escola tranquila que garanta que tolera todas as emoções e dificuldades dos seus alunos, professores e funcionários; uma escola que vai à narrativa da perda e da vida de todos, muito além das narrativas dos livros; é preciso saber cuidar dos que cuidam tanto e não esquecer que são, simultaneamente, cuidadores e vítimas; é preciso ouvir as verdades todas sem julgar, comparar ou exigir.

Não existe uma verdade, mas tantas quantas as dores de cada um: se há quem queira livrar-se deste dia e assim proteger-se de uma dor derradeira, há quem queira mantê-lo na memória e assim manter-se com quem perdeu; se há quem precise cultivar novas terras e acreditar que a esperança é o futuro, há quem precise chorar e gritar e nem por isso terá menos futuro. Se há quem chore os seus mortos sozinho e calado, num quarto escondido e precise de adormecer o que sente, há quem chore trabalhando, cuidando e acelerando o passo.

E todos, todos, mesmo todos. Estão em sofrimento. E contarão histórias diferentes na forma, comuns na experiência de perda e trauma. 

É preciso sarar as feridas no corpo, porque o corpo também conta a história e guarda as marcas. E lembrar, ainda, como podem ser teimosas e complexas as feridas do pensamento e do coração.

A culpa de quem fica. A confusão do que não se entenderá. O medo dos que caminham por ali e por aqui (como tantas crianças que deixaram de querer ir de férias pelas estradas do interior, onde são só florestas!). O vazio. A tristeza profunda. A revolta. A saudade. A… A…

O maior perigo do 17 de Junho de agora?

Que não se cuide bem dos que precisam, que se reduza a comunidade ao fogo, que se limite a sua identidade. Que se escrevam verdades sem ouvir a de cada um. Que se cuide de cada um sem a especificidade necessária, sem valorizar o luto, sem falar de trauma, sem tolerar o sofrimento. Que se diga o que precisam sem os ter escutado primeiro. Que se pare, um dia, de escutar os que vivem em luto. Que se disfarcem demais as emoções, no meio da necessidade de sobreviver.

Que arda a memória colectiva.

 

Este é um texto de reflexão pessoal, não pretende ser um texto científico.

 

Ana Santos

Psicóloga

Formadora